O “G” da questão ESG

Alguns dizem que o fator Governança é o elo entre os outros fatores (sociais e ambientais) do ESG. Ele está atrelado à questão da ética e da transparência na conduta empresarial. Esse fator é a vitrine do modus operandi de uma empresa, seja por meio de processos de auditorias, compliance, remuneração de colaboradores, pagamentos de impostos, gestão de contratos etc.

Para entender a sua importância, basta fazer um resgate histórico de seu surgimento.  A partir da evolução do sistema econômico e do crescimento das organizações, que tornaram essas estruturas maiores e mais complexas, surgiu a Governança Corporativa. Esse modelo de gestão veio essencialmente para solucionar às divergências de posicionamento entre os donos e os gestores das organizações, efeito de uma separação entre a estrutura de propriedade (dono) e de gestão das empresas (profissional capacitado). 

Na Governança Corporativa são utilizados diversos mecanismos, mas o de controle interno serve para auxiliar na resolução de problemas. Estes, foram desenhados pela própria organização e servem para fornecer garantias quanto ao cumprimento dos objetivos relacionados às operações e ao compliance empresarial. Nesse sentido, considerando que o ESG (sigla em inglês para Meio Ambiente, Social e Governança) traz uma variedade de métricas para estabelecer políticas, processos e controles, gerando informações confiáveis para a tomada de decisão e garantindo a qualidade dos dados produzidos e relatados, esse mecanismo surge como uma ferramenta de controle interno de governança. 

Assim, o critério de governança, que coloca o “G’ na questão “ESG’, pode ser definido como o sistema de controle interno das empresas que facilita e aprimora a tomada de decisão e o compliance, atendendo às necessidades dos stakeholders.

Destacamos as questões mais dominantes de governança que afetam as organizações, quais sejam: a qualidade, a diversidade e a eficiência do Conselho de Administração. As características do Conselho de uma empresa são cruciais, uma vez que o propósito do ESG deve ser compartilhado por todos aqueles em posição de liderança estratégica. Com um Conselho de qualidade, eficiente e diversificado, é possível gerar impactos positivos no meio ambiente e na sociedade, através de uma estratégia corporativa em que os investidores alcancem retornos sustentáveis. Empresas devem atender a expectativa do mercado em que atua, independentemente de sua complexidade e diversificação. O Conselho deve observar essas características para poder absorver as demandas.

Outro critério de governança cujas implicações podem trazer impactos profundos para a organização é a ética no trabalho. Para exemplificar esse critério, trazemos o caso do varejista americano Dicks Sporting Goods (DKS), que, em 2018, anunciou, logo após um tiroteio em uma escola na Flórida, que restringiria as vendas de armas de fogo em suas lojas em todo o país, ao pesar as consequências éticas e morais dessa comercialização. 

A empresa sofreu uma perda de receita estimada em $150 milhões de dólares, diretamente associada à diminuição das vendas de armas de fogo, durante o período de 12 meses que se seguiu. No entanto, no mesmo período, o preço das ações da empresa teve um aumento de 22%, o que reflete a relevância de práticas ESG voltadas para governança, neste caso atrelado à questão social, especialmente quando consideramos as implicações estratégicas para a reputação da empresa.

Medidas de accountability também podem ser citadas como critérios de governança. Não apenas os investidores, mas também a sociedade civil como um todo têm exigido cada vez mais transparência, fiscalização e prestação de contas em se tratando da performance ambiental e social das organizações. Isso é colocado em prática quando atribuímos responsabilidades para garantir que uma organização atenda aos padrões esperados. Accountability nas organizações pode ser alcançada de diversas formas, entre elas: compliance; designação clara da cadeia de responsabilidades; código de ética; e a incorporação de um órgão neutro que revise as eventuais violações éticas.

Uma pesquisa da S&P Global (2020) sobre fatores de governança mostrou que as empresas que foram classificadas abaixo da média em características de boa governança estão mais propensas à má gestão1. Nesse sentido, as políticas de governança podem expor as empresas a níveis inaceitáveis de risco, comprometendo o negócio como um todo.

As questões de governança, portanto, são indissociáveis de todas as outras questões que afligem as organizações. Os problemas de cunho social e ambiental que impactam as operações das empresas não podem (e não devem a nosso ver) ser afastados da governança. Como visto, são critérios que se sobrepõem. Assim, o ESG tem sido visto como um propulsor de práticas de boa governança, que podem melhorar a performance, criar valor e minimizar os riscos em todos os aspectos das organizações.

No mundo de hoje, independentemente do tamanho de sua empresa, atuar sob os critérios ESG indica solidez de resultados, custos mais baixos, melhor reputação e maior resiliência em meio às incertezas e vulnerabilidades.


1 Disponível em: <https://www.spglobal.com/en/research-insights/articles/what-is-the-g-in-esg>

Publicado em: 25/08/2021

Por: Gleyse Gulin e Isabella Dabrowski Pedrini

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