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03/08/2026Este artigo aborda os riscos operacionais impostos pelas mudanças climáticas aos empreendimentos hidrelétricos e destaca a importância das metas de mitigação e adaptação previstas no Plano Clima, lançado pelo Governo Federal em 2026. O objetivo é analisar como o planejamento nacional busca fortalecer a resiliência da infraestrutura energética diante da crescente instabilidade hídrica.
As usinas hidrelétricas ocupam posição central na matriz elétrica brasileira, tendo representado, em 2024, 56,1% da geração de energia nacional, conforme a Empresa de Pesquisa Energética (EPE)[1]. Trata-se, portanto, de uma fonte renovável essencial ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
A operação desses empreendimentos depende da disponibilidade hídrica. Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)[2], menos de 1% da água doce do planeta está disponível em rios — justamente o ativo que alimenta a geração hidrelétrica.
O desafio é ampliado pelo aquecimento global. Em 2024, a temperatura média do planeta já havia superado o limiar de 1,5 °C em relação ao período pré-industrial, de acordo com registros da Organização Meteorológica Mundial[3]. O aumento de temperatura intensifica o ciclo hidrológico, resultando em maior evaporação, estiagens severas e chuvas concentradas em curtos períodos.
Na prática, esse processo dificulta a regularização dos reservatórios e eleva a incerteza operacional de todo o sistema. Nesse cenário, as usinas de regularização desempenham um papel essencial, pois possuem reservatórios maiores, que funcionam como estoques estratégicos capazes de acumular água em épocas de cheia para garantir a geração em períodos de seca, conferindo maior estabilidade ao atendimento da demanda.
Além do impacto direto sobre a geração, eventos extremos também afetam a infraestrutura de transmissão e distribuição. A ANEEL tem alertado para o aumento de interrupções causadas por incêndios próximos às linhas de transmissão durante períodos de seca prolongada[4].
Assim, a discussão climática no setor elétrico deixa de ser apenas ambiental para se tornar uma questão de confiabilidade e gestão de riscos de longo prazo. É nesse ponto que o Plano Clima[5], lançado em 2026, ganha relevância ao reunir planos setoriais específicos para energia.
No campo da adaptação, o Plano Setorial de Energia, coordenado pelo Ministério de Minas e Energia (MME), busca fortalecer a resiliência da infraestrutura por meio de 16 metas e 38 ações, incluindo estudos para identificar potenciais reservatórios de regularização que beneficiem tanto a segurança energética quanto os usos múltiplos da água.
Já no eixo da mitigação, o foco reside na preservação e expansão de fontes limpas e na eficiência energética. Com 9 ações impactantes e 17 estruturantes, o governo estabeleceu a meta de ampliar a participação da matriz elétrica renovável para um percentual entre 82,7% e 86,1% até 2035, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e consolidando a transição energética sustentável.
Em síntese, as mudanças climáticas impõem riscos concretos à operação dos empreendimentos hidrelétricos e à estabilidade do sistema elétrico. Nesse contexto, o Plano Clima surge como um instrumento necessário para organizar a resposta pública a esses desafios, contribuindo para um planejamento resiliente e coerente com a nova realidade climática.
[1] EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA (Brasil). Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2025. Rio de Janeiro: EPE, 2025. Disponível em: https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-160/topico-168/anuario-factsheet.pdf. Acesso em: 31 jul. 2026.
[2] AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO. Água no mundo, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/ana/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/cooperacao-internacional/agua-no-mundo . Acesso em: 31 jul. 2026.
[3] ORGANIZAÇÃO METEOROLÓGICA MUNDIAL. Un informe de la Organización Meteorológica Mundial documenta la espiral de consecuencias del cambio climático. Disponível em: https://wmo.int/es/news/media-centre/un-informe-de-la-organizacion-meteorologica-mundial-documenta-la-espiral-de-consecuencias-de-los. Acesso em: 31 jul. 2026.
[4] AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA. Prevenção de incêndios próximos a linhas de transmissão de energia. Disponível em: https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/campanhas/prevencao-de-incendios-proximos-a-linhas-de-transmissao-de-energia-2025. Acesso em: 1 ago. 2026.
[5] ALIANÇA PELO IMPACTO. Sumário executivo Plano Clima. Disponível em: https://aliancapeloimpacto.org.br/wp-content/uploads/2026/06/202602-sumario-executivo-plano-clima.pdf. Acesso em: 31 jul. 2026.
Publicado em: 04/08/2026
Por: Maria Paula Gallucci









