ESG: uma sigla que veio para ficar

Ê-ésse-gê: nos ciclos dedicados à gestão corporativa, não se fala de outra coisa. As três letras são a sigla para a expressão em inglês Environmental, Social, Governmental (ambiental, social e governança corporativa). Esses três eixos representam um novo critério de conduta para a gestão de organizações de todo tipo, buscando resultados além do lucro puro e simples.

Adotar o ESG significa preocupar-se não mais apenas com os detentores de ações de uma empresa (shareholders), cujo interesse, em geral, está relacionado à valorização de uma empresa ou empreendimento no mercado e, por consequência, resultados econômicos imediatos. O foco passa a ser com os detentores de todo tipo de interesse na empresa – os chamados stakeholders, para usar a expressão em inglês que virou praxe.

Todos aqueles que são afetados direta ou indiretamente por um empreendimento são considerados stakeholders, e identificá-los é uma tarefa complexa.

A instalação de um terminal portuário, por exemplo, pode ter impactos diretos sobre comunidades de pescadores próximas, pode exigir a supressão de vegetação e a realização de obras em alto mar, pode atrair funcionários e ter impactos sobre a população de cidades próximas, pode resultar na emissão de carbono na atmosfera… Cada um desses fatores transforma em stakeholders as pessoas que são afetadas por essas transformações, queiram elas ou não – e todos esses interesses precisam ser levados em conta durante a instalação e operação do projeto.

No passado, a única pergunta que se fazia antes de investir numa empresa ou num projeto era “quanto vou ter de retorno?”. A preocupação com o ESG significa que esse cenário mudou – a pergunta hoje é “quem ou o que meu dinheiro está financiando?”. Exemplo disso são os green bonds, tema que já abordamos aqui no site do Saes Advogados.

Trata-se, assim, de investir com consciência – um assunto que virou uma necessidade em tempos de crises climáticas, de desigualdade social e constantes denúncias de corrupção. Deve-se pensar no longo prazo, para garantir que nas próximas décadas ainda haja um planeta capaz de sustentar o desenvolvimento econômico, e uma população que possa ser beneficiada com esse desenvolvimento.

Afinal, as organizações são filhas de seu contexto. Quem se desenvolve com sustentabilidade está garantindo que ainda haverá um mercado saudável para investir por muito tempo – ou seja, mesmo para quem só pensa no lucro, o ESG é uma necessidade.

Mas é preciso ter cuidado com a maquiagem verde (greenwashing). O mercado de gestão corporativa é recheado de modismos temporários.  Se o ESG for transformado numa pura e simples jogada de marketing, a organização se expõe a uma gigantesca crise de relações públicas. O pensamento de longo prazo é estratégia que deve ser adotada em todos os níveis de gestão.

Vale destacar, por último, que muito do que hoje se convencionou chamar de ESG não é tão novo assim. Quem empreende no Brasil sabe que as preocupações com o impacto ambiental e social de um projeto já são velhas conhecidas.

É errado pensar que o desenvolvimento econômico é marcado por uma briga entre empresários que só querem saber de dinheiro fácil e ambientalistas que querem preservar a todo custo, sacrificando a economia. Isso é uma falácia – e o próprio direito ambiental é prova disso. Seu objetivo, como previsto na Constituição do Brasil, é exatamente o de permitir que o desenvolvimento econômico ocorra sem sacrificar o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.

Essas preocupações sempre existiram, só se tornam cada vez mais tangíveis. E agora, com o ESG entrando em pauta, receberam um nome.

Por Pedro Henrique Reschke

Publicado em 05/03/2021

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